02 out, 2018

A prática religiosa na prática cidadã.


A prática religiosa na prática cidadã

A prática religiosa na  prática cidadã

Eventualmente, ocorre que alguns termos se distanciam de seu sentido original passam a ter outro sentido.

Várias são as palavras que podem ser elencadas para ilustrar este fenômeno como: “trânsito” que tem deixado de ser fluxo de pedestres e veículos pelas vias públicas para ir assumindo o sentido de congestionamento; “vilão” que se referia a moradores dos vilarejos, e, por semelhança, com a palavra ‘vil’, acabou adquirindo conotação negativa. “Tratante” é um outro bom exemplo: inicialmente, destinada a quem apenas tratava de negócios (sem juízo de valor), passou a conotar a má fé, em tais operações, graças ao mal exemplo de uns poucos larápios.

Igualmente curioso é o que ocorre à palavra “política”. No ocidente, é sabido que sua origem remonta ao período por volta do século IV a.C., em Atenas, quando as decisões, que interessavam a todos, eram tomadas em reuniões com a presença de boa parte da população. Lamentavelmente, “política”, atualmente é lembrada, quase que exclusivamente, para se referir a práticas partidárias, às quais – sobretudo no Brasil – dispensam apresentações. A atividade política partidária é uma esfera da atividade política humana, como a economia, a cultura, o futebol, as artes, a religiosa, a culinária e todas as demais esferas.

O ser humano é, por natureza, um animal político, pois, se entende na interação com seus pares. Ao interagir com eles, o faz de acordo com critérios que beneficiem a si mesmo e, soberanamente, aos seus próprios pares. Não há ação humana que não esteja dotada de política. Nem mesmo a ação religiosa está livre da política. De saída, não se faz uma homilia, uma catequese, uma celebração ou um ritual de qualquer orientação religiosa que seja, sem que as pessoas, com quem se interage, sejam afetadas e isto tenha implicações na relação com o outro e com seu meio. Assim, uma operação ritualística que se pretenda desprovida de política (para uma falaciosa isenção, neutralidade ou algo que o valha), contém em si o germe da falência, porque é contraditória.

Cristo, o próprio Deus encarnado, viveu entre nós. Sua atividade foi, também política, sem deixar de ser transcendental. Os cristãos, enquanto seus seguidores, não podem conceber uma prática religiosa que desconheça sua implicação política, bem como não pode conceber uma prática política desprovida de sua espiritualidade. Cristo sintetiza seu seguimento ao amor a Deus e ao próximo (e o universo de atitudes e renúncias que tais escolhas implicam). Um seguidor seu que, portanto, ao exercer sua cidadania, despreza estes princípios mais elementares, despreza o sacrifício do próprio Messias. A Igreja Católica, por meio de seus documentos, que tratam de sua doutrina social, adverte seus fiéis:
O sobrenatural não deve ser concebido como uma entidade ou um espaço que começa onde termina o natural, mas como uma elevação deste, de modo que nada da ordem da criação e do humano é alheio ou excluído da ordem sobrenatural e teologal da fé e da graça, antes aí é reconhecido, assumido e elevado (…) (CONSELHO PONTIFÍCIO “JUSTIÇA E PAZ”, 2004)
Uma homilia, catequese, formação cristã, ou qualquer outra prática formativa religiosa que ignore o termo política, a esta época do ano, é uma prática omissa. Uma prática, contudo, que aproveite o período para angariar votos a um ou outro candidato ao pleito, é oportunista e usurpadora do espaço sagrado e sua Narrativa sacra.

Em tempo, seria dispensável, a esta altura, destacar a necessidade de se dissociar o conceito de ambão e altar (locais destinados ao rito da Palavra de Deus e da Eucaristia) do conceito de palanque (local destinado ao ato de comício de candidatos a cargos políticos). Seria dispensável se não fosse uma prática comum ao ‘métier’ de boa parte das religiões – sobretudo cristãs –, que pastores, ministros, padres e outras lideranças espirituais promovam seus candidatos em troca de benefícios pessoais ou para suas comunidades (em que pese suas implicações morais).
Desde 1890, o Brasil se identifica como país laico, e assim o deve ser para que haja isonomia no trato de seus cidadãos. Contudo, o país é composto por membros que são dotados de valores, subjetividades e crenças, todas com sua liberdade assegurada por lei. Cabe às religiões fazerem seus papéis de propiciarem e suscitarem a reflexão crítica da relevância do papel de seus membros em exercerem sua cidadania no cotidiano, além de escolherem seus representantes, em coerência com a proposta de suas matrizes teológicas/filosóficas/ideológicas, e isto inclui o respeito à dignidade humana, tolerância ao diferente e o sentido de altruísmo (valores comuns a todas religiões). Assim, a palavra ‘política’ continuará sendo o que é de interesse de todos, bem como ‘religião’ seguirá significando religação.

“Amar e mudar as coisas, me interessa mais” (Alucinação – Belchior)

Por João Carlos Teixeira Junior


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