17 nov, 2016

Semana Missionária: ir ao encontro de Deus, do outro e de Si mesmo.


Semana Missionária: ir ao encontro de Deus, do outro e de Si mesmo

Semana Missionária: ir ao encontro de Deus, do outro e de Si mesmo

O bem tende sempre a comunicar-se. Toda a experiência autêntica de verdade e de beleza procura, por si mesma, a sua expansão; e qualquer pessoa que viva uma libertação
profunda adquire maior sensibilidade face às necessidades dos outros. E, uma vez
comunicado, o bem radica-se e desenvolve-se (… ) 2013, EVANGELII GAUDIUM pág.3

Quando se fala em missões, para boa parte das pessoas, a imagem que vem à mente é a de padres jesuítas a bordo de navios portugueses chegando a um território de natureza selvagem, embrenhando-se em matas cerradas, catequizando índios e fundando igrejas. Neste sentido, é estranho imaginar uma modalidade de missão em que os protagonistas sejam jovens estudantes, no geral entre 14 e 18 anos de idade, e que os destinatários da ação sejam católicos, participantes de uma comunidade e, em geral, com vida pastoral ativa e vivência dos sacramentos. Esta forma de fazer missão acontece regularmente ,há mais de quinze anos, e já levou milhares de alunos de colégios salesianos, paróquias e obras sociais aos mais diversos rincões deste país, na maioria das vezes, lugares esmos, distantes dos grandes centros urbanos.
Aqui em São Paulo, o projeto já era realizado pelos salesianos, desde o final dos anos 1990, e a partir de 2001 as Filhas de Maria Auxiliadora também passaram a realizar a proposta.
Neste artigo, refletiremos sobre o projeto Semana Missionária, e, também, sobre a exigência de se assumir nossa vocação missionária, condição intrínseca de ser cristão.

POR QUE EVANGELIZAR?
“Antes que tu nascesses, te conheci e ti consagrei. Para ser Meu profeta dentre as nações eu ti escolhi. Irás onde ti envio e o que Eu mando proclamarás. Tenho de gritar, tenho de arriscar, ai de mim se não o faço!” (Luiz de Carvalho)

Primeiramente, ao sermos batizados somos convocados a evangelizar. No sacramento da iniciação, ao sermos incorporados a Cristo e inseridos na comunidade, nos tornamos sacerdotes, profetas e reis. Conforme nos mostra o Antigo Testamento, os profetas foram os que prenunciaram a vinda do Messias, ou seja, os anunciadores do Cristo.

Somente a exigência canônica, ou uma determinação fundamentada teologicamente poderia fazer do anúncio de Cristo um mero cumprimento ritualístico, quase burocrático. Mas falar Dele, Cristo, supera qualquer exigência formal para caracterizar-se como reação a quem fez uma verdadeira experiência de Deus. De fato, o chamado dos apóstolos e profetas, o surgimento da Igreja e a vocação das Santas e Santos cristãos são, invariavelmente, disparados por uma movimento epifânico, um encontro pessoal com o Divino.
Seja na Eucaristia, na intensidade de uma oração profunda e verdadeira, na leitura das Sagradas Escrituras, no rosto de um irmão que sofre, não há intenção real de falar de Deus que não passe pelo encontro com o próprio Deus. É deste momento sublime, em que o imanente é tomado pelo transcendente que nasce o ardor motivador do anuncio. Do contrário a experiência de evangelizar, aí sim, se torna formal, burocrática, esvaziada de si, cênica.
Falar da experiência do contato com o Belo é, então, um movimento quase involuntário. É como se tivéssemos apaixonados pela música de uma banda nova. Fatalmente indicaremos o som da tal banda a amigos e conhecidos, assumindo esta função de multiplicador e de marketing sem que notemos. Então, se com um conjunto musical fazemos este movimento, por que não com Deus?
O próprio Cristo orientou sobre a necessidade de levar adiante sua mensagem salvífica. Nas últimas linhas do Evangelho de Mateus, após ressuscitar, Jesus aparece aos apóstolos pedindo que “vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que ordenei a vocês”. (Mt 28, 19-20)
Na bonita metáfora de Madre Tereza de Calcutá, a expressão da missionariedade cristã:
É frequente observares fios elétricos ao longo da estrada. Se a corrente não passa por eles, não há luz. O fio é o que somos tu e eu. A corrente elétrica é Deus. Temos o poder de a deixar passar através de nós e, assim, fornecer ao mundo a Luz, que é Jesus, ou de recusarmos que Ele Se sirva de nós, permitindo, com isso, que a escuridão se alastre. (YOUCAT, Pág. 18).

COMO ANUNCIAR JESUS

Levar a mensagem cristã e proporcionar a experiência de Deus para o próximo exigem paixão pelo que se faz, confiança em Deus pelo porvir, e consciência de como fazer. A configuração do modo de evangelizar é o que torna a Semana Missionária sui generis: O projeto tem uma rotina preestabelecida, com diversas atividades. Dentre as quais:
A bênção das famílias, em que os missionários visitam as casas, partilham das alegrias e sofrimentos de seus moradores, rezam por elas e ministram palavras de conforto e esperança, iluminados pela leitura da Palavra de Deus.
A saída pelas ruas do bairro consome o tempo todo da manhã, e, após o almoço, os jovens realizam o oratório com crianças e jovens. Entre jogos, brincadeiras de roda, oração, o boa tarde e muita alegria, cria-se a oportunidade de, ao modo de Dom Bosco, educar evangelizando e evangelizar educando.

Ao final do dia, na celebração com a comunidade local, reza-se pela família, pela juventude, pela Misericórdia de Deus e por outros tantos motivos que revelam a incomensurável fé de um povo que não se dobra à qualquer dificuldade.

Ao observar Jesus em sua ação pastoral, o percebemos, durante muito tempo, interagindo com o povo em sua realidade cotidiana: seja ceando com eles, conversando, caminhando a seu lado, enfim, a prática de jesus é a do anúncio ‘pé no chão’. Não menos importantes, são menos frequentes as ocasiões em que o vemos pregando nas sinagogas.

A Semana Missionária propõe uma evangelização que não se resuma ao anúncio verbal ou numa modalidade doutrinária. É antes, uma experiência de anúncio diluído em atividades que nem sempre aparentam conotação religiosa, mas concentrado num testemunho empolgado e verdadeiro, próprio das juventudes, e que tem o potencial de contagiar quem encontrar.

Em junho de 2001, a Ir. Dorce Rampi, então coordenadora de pastoral do Colégio de Santa Inês, reuniu um grupo de dezessete alunos e, com três assessores foi à cidade de Sertão Velho, fazer a primeira Semana Missionária das Filhas de Maria Auxiliadora. “Foi uma experiência de intenso protagonismo jovem, pois eles assumiram todas as atividades ao longo do dia. Tocavam as oficinas, oratório, celebrações, enfim, tudo. Eu só liderava a avaliação ao final do dia. O resto era com eles”, afirma a salesiana. Além da iniciativa por parte dos estudantes, Ir. Dorce ressalta: “ver a situação precária em que as pessoas viviam naquele lugar e fazer uma experiência radical de viver somente com o necessário modificou a vida destes jovens para sempre”.

SAIR DE SI

A realização da Semana Missionária pressupõe organização antes, durante e depois do evento: alimentação, distribuição de funções e atividades, preparação teológica, catequética, pastoral e espiritual dos envolvidos… Enfim, o deslocamento com adolescentes a locais distantes de suas famílias, hospitais e demais aparatos urbanos, exige superar o espírito romântico e desbravador, que abre bandeiras e entrega-se ao ermo. Há de se minimizar a mentalidade do improviso a fim de potencializar a experiência para a comunidade que recebe a missão, e os próprios missionários. Do contrário a proposta fica frouxa, despretensiosa e sem objetivo.

Planejar, no entanto, não significa intransigência, pois a proposta que desembarca em terra de missão inflexível, indisposta a negociar, interagir e abrir-se ao modus operandi, cultura e fluxo locais, arrisca-se a se tornar mera imposição colonialista de um ponto de vista sobre outro, o que faz da experiência algo estéril, infrutífero.

”Saia de sua terra, do meio de seus parentes e da casa de seu pai, e vá para a terra que lhe mostrarei”, disse Deus a Abrão. (Gn 12,1). No gesto de abandonar-se nas mãos de Deus, e sentir sua presença em cada instante, reside o cerne do ser missionário.

No fim, o sabor que é guardado nas recordações dos jovens que participam desta experiência é a do desapego de tudo o que é excesso e retorno ao essencial; de enxergar o mundo por um prisma outro que não o seu; de valorizar as experiências e oportunidades que lhe são ofertadas, e criar condições aos que, por aspectos sociais, dificilmente as têm; de buscar uma experiência transcendental na vivência da fraternidade comunitária, na oração e no serviço ao próximo.

Para adolescentes, muitos provindos de uma confortável situação econômica, a experiência de ir ao encontro de uma realidade distinta, por vezes marcada pela pobreza e negligência do poder público, já é, por si, oportunidade de transformação pessoal. Mas o sentido da missão se completa quando o encontro transforma todos os agentes envolvidos. Falar às pessoas sobre esperança, apontar caminhos para a superação de sua condição marginal, revitalizar a experiência de fé e de comprometimento pastoral das pessoas, nisto a missão se faz modo eficaz de anunciar a boa nova de Cristo.

A estudante do Colégio de Santa Inês, Gabriela Calderon, que participou da missão em Taubaté, neste ano, ressalta a gratidão da comunidade local, em recompensa ao cansaço das atividades: “uma semana cheia e corrida, mas que valeu o esforço. Em tudo que eu fazia e participava, via a recompensa, com pequenos gestos, sorrisos e palavras”.

O anúncio que estes jovens fazem, pode não ser o de maior robustez teológica e de consolidada experiência eclesial. Algumas pessoas de mesma idade, que se encontram nos locais de missão, têm noção e vivência de fé, por vezes, mais bem estabelecidas que eles, missionários. O que os qualificam como agentes de missão, então?

A Semana Missionária é sempre momento entusiasmante, pois esta é a característica primeira dos missionários. Entusiasmo é uma palavra de origem grega, que remonta à expressão En Theos, ou seja, em Deus. Estar repleto de Deus e transbordá-lo no cuidado com o próximo. É isto que se propõe a experiência e é esta a contribuição do jovem missionário: Ser Igreja em saída e fazer aquele tipo de evangelização que se realiza com a vida, com o testemunho, com o trabalho árduo, na experiência do convívio comunitário, que anula o egoísmo social vigente, no seguimento radical de Jesus, no diálogo com Deus, na renúncia dos apetrechos que se deixa para trás, na doação de uma semana de férias a pessoas que, em geral, carecem de atenção, de carinho, de uma renovada experiência de Deus.

Não há como ser o mesmo após esta Semana.

“Evangelize sempre, se necessário, use palavras” (São Francisco de Assis).

Texto: João Carlos Teixeira | Revista Em Família nº47


Deixe uma resposta