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Maria Mazzarello: modelo feminino do Acompanhamento Salesiano

A vida é um mistério. Dom recebido em perfeita gratuidade e tarefa a ser assumida com responsabilidade. O acompanhar supõe fazer companhia e ser companheiro de viagem na vida de quem tem caminhando conosco. Ser companheiro é estar ao lado. Não se pode substituir o outro no seu processo de crescimento. É preciso partilhar a vida enquanto se caminha: escutar e, principalmente, acolher as preocupações, compreender valores e situações. O importante é suscitar a procura de sentido, orientar o discernimento para uma resposta positiva diante das encruzilhadas que vamos encontrando.

Dessa maneira, a pequena semente de vida de Maria Mazzarello achou um terreno fértil em Mornese, na família profundamente cristã, na paróquia animada pelo sábio Pe. Pestarino, rico de ardor apostólico e de capacidade de discernimento. O seu itinerário de iniciação à fé se transformou em abertura a Deus e livre entrega de amor. Todas as experiências de acompanhamento a orientaram a cultivar a centralidade de Cristo em sua vida e em suas decisões. Maria Mazzarello tinha um olhar que valorizava e estimulava o crescimento de toda pessoa que dela se aproximava, um espírito decididamente voltado para a meta; uma mãe de coração orante, que penetrava no mundo interior de cada jovem que chegava ao Colégio de Mornese e fazia desabrochar a beleza de uma alma que tinha sede de Deus.

A missão educativa que caracterizou a primeira Comunidade de Mornese possuía um estilo de relações que visava despertar no coração das jovens o desejo do encontro com Deus, vividos na eucaristia, nas práticas de piedade, nas boas ações e nas amizades. Assim, podiam percorrer com sinceridade e transparência um projeto de vida coerente, vivido na experiência do acompanhamento recíproco, descobrindo a vida como dom gratuito de amor.

Sua maneira de escutar foi uma arte diante das necessidades das jovens mornesinas, que gerava proximidade, capacidade de abrir o coração, sem preconceitos ou moralismos. Sua serenidade e convicção compreendia adequadamente a necessidade oculta de cada menina ou irmã, e juntas, percorriam estradas antes tão difíceis. Cito três experiências de acompanhamento vivenciados por Maria Mazzarello: Corina Arrigotti, foi um coração conquistado pelo amor. Era órfã de mãe e o seu pai, em vez de ajudá-la a orientar suas energias para o bem, a levava em festas, porque era bonita e instruída. Em Mornese a adolescente sentia-se livre, e o olhar esperto de Maria a observava e, indo além das aparências, entendia que o “fundo era bom e dava esperança”. O seu sistema era a confiança na pessoa e nas suas potencialidades. À luz da fé, Corina vai acompanhando os processos, amadurecendo e se deixando tocar, toma consciência do projeto apaixonado de Deus e deixa-se guiar. Maria Belletti, um terreno a cavar com paciência, também órfã, não desejava seguir um processo formativo no Colégio de Mornese. O estudo não lhe agradava, na capela estava sempre de má vontade e com ar distraído. O alimento também não era do seu gosto. Era preciso as “estratégias dos tempos longos”. A mudança chegou de modo gradativo. Maria soube intervir com uma palavra doce e firme, sabendo guiá-la com convicção e paciência. Emma Ferrero, uma rebelde chamada à santidade, era de família rica, frequentava bailes e teatros, até que a família foi reduzida à pobreza. Aceitou ir a Mornese apenas para se livrar da vergonha da miséria, mas estava revoltada. Não trabalhava, não rezava, dormia muito pouco e não se alimentava bem. Sempre confusa e de mau humor, e sua única preocupação era o seu baú, onde tinham seus objetos que recordavam o passado. A Madre sempre vigilante e com o olhar atento de educadora sábia e prudente, consegue entrar em diálogo com a jovem, fazendo-a raciocinar e levá-la a tomar uma decisão. Emma se transforma. O gesto definitivo e profundamente significativo foi quando arrastou seu baú para o pátio, colocou fogo em seus pertences e serenamente decidiu-se por ser FMA. O verdadeiro discernimento é preparado e feito no amor, no envolvimento de todas as pessoas interessadas. É preciso cuidar e cultivar o acolhimento fraterno, que abre espaço para o Senhor habitar no meio de nós.

Nosso Reitor-mor, Pe. Àngel Fernandez Artime, na Estreia de 2018, com o tema: “Cultivemos a arte de escutar e de acompanhar” e com o texto bíblico da Samaritana: “Senhor, dá-me dessa água”, reflete que “são os jovens que pedem a nossa ajuda para continuar a crescer e amadurecer na própria fé. Muitos deles têm um coração grande, generoso, e desejam servir aos outros, fazer alguma coisa pelos outros, auxiliar, doar-se. São numerosos os que estariam dispostos a trilhar um caminho pessoal e comunitário de discernimento e acompanhamento. Nós, Família Salesiana desejamos que os jovens possam descobrir um modo de viver e de sonhar a própria vida amadurecendo valores como a gratuidade e a entrega, a abertura aos outros e a Deus. Queremos ajudar os jovens, e toda pessoa que está em caminho, a descobrir que a vida pode ser concebida como dom e missão, e que isso os fará felizes. ”

São três os protagonistas do acompanhamento pessoal: quem acompanha, quem é acompanhado e o Espírito Santo. Quem acompanha deve mostrar sigilo, afeto e empatia suficientes para criar confiança, viver de uma forma significativa e coerente os valores do Evangelho, sabendo conciliar prudência e sabedoria. Quem se deixa acompanhar abre o seu espaço interior ao diálogo com a experiência e o «saber» de quem acompanha. Com liberdade, transparência e verdade, deixando-se interpelar. E o Espírito Santo? O Espírito é o mestre que acompanha um e outro de forma silenciosa, como dom e graça, para que este «acompanhar» se faça em direção a um horizonte de esperança e vida em Deus.

O Senhor, continua Pe. Àngel, ainda em nossos dias, fascina muitos jovens, e essa atração está em estrita relação com a fé e o chamado que Deus dirige a cada um dos seus filhos e filhas para viverem a vida como vocação à alegria do amor. A fé faz com que os jovens se sintam conquistados pelo modo de ver, acolher, relacionar-se e viver de Jesus, e dilata a sua vida. Como diz o Papa Francisco, “a fé não é um refúgio para gente sem coragem, mas a dilatação da vida: faz descobrir uma grande chamada — a vocação ao amor — e assegura que este amor é fiável, que vale a pena entregar-se a ele, porque o seu fundamento se encontra na fidelidade de Deus, que é mais forte do que toda a nossa fragilidade” (CARTA ENCÍCLICA “LUMEN FIDEI”nº53).
Maria Mazzarello foi desde sempre mestra na arte de acompanhar porque primeiro deixou ser acompanhada. Alimentada pela fé e pela audácia, foi fiel ao seu projeto educativo, orientando tantas jovens a percorrer um caminho de santidade, a deixar-se modelar pelas mãos do Espírito.

Por: Ir. Monaliza Machado

 

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