Educar é acompanhar

Educar é acompanhar

A abordagem dos jovens, no contexto contemporâneo, revela a sua necessidade de apoiar-se em pessoas que lhes deem segurança para continuarem avançando no caminho de suas vidas. Por isso ganha grande importância o educador que se torna ‘acompanhante’ em cada ambiente educativo: como testemunha, pela formação recebida e pela sua experiência de vida; como acompanhante, porque procura viver a fé em Jesus Cristo. Os itinerários de Educação à Fé são uma resposta concreta e um instrumento eficaz para os que exercem este ministério como Educomunicadores e Evangelizadores dos jovens.

OS JOVENS NO MUNDO DE HOJE

■ O amor e o seu contrário
Uma recente campanha publicitária de uma conhecida marca de alimento, fez uma radiografia dos espanhóis como pessoas que amam e odeiam as mesmas coisas ao mesmo tempo. O termo cunhado para identificar este sentimento foi: “amódio” e bem poderia ser aplicado aos jovens de hoje, este novo vocábulo, ainda não introduzido no dicionário.
A relação “Jovens espanhóis entre dois séculos (1984-2017)”, promovido pela Fundação SM, oferece um profundo estudo tanto do panorama das últimas décadas como da situação atual dos jovens em nosso País. Nesta publicação os jovens se revelam admiradores do altruísmo, mas pouco envolvidos no voluntariado concreto; permissivos e negligentes naquilo que se refere à moral, mas exigentes quando se trata de reivindicar o reconhecimento da propria personalidade; muito dependentes da família, mas rebeldes que pedem para seguir suas próprias regras.

■ A política conta
Os jovens de hoje definem-se “indignados com a situação sociopolítica”. Trata-se de uma situação que há nos vai adiante com o nome de “crises”, das quais se fala há tanto tempo e cujas consequências tocam os jovens em primeira pessoa: alta taxa de desemprego, cortes econômicos nos serviços e na assistência social, escassas perspectivas para o futuro. Não menos indignados eles se demonstram diante dos escandalosos casos de corrupção que atingem numerosas personalidades, tanto na política, como no esporte e na cultura.
As notícias sobre a sociedade europeia oferecem um panorama em que os jovens se revelam sempre mais interessados pela política, todavia perigosamente enraizados tanto na esquerda, com os assim chamados “populismos” que fazem caminho em toda a Europa, quanto na direita, com posições que tendem à tutela da identidade e à rejeição de quem vem de fora.
Tal crescente interesse pela política apresenta-se como uma oportunidade também para o associacionismo. Ressurgem os movimentos que reagrupam pessoas com interesses comuns, como aqueles que nos anos oitenta e 90 do século passado, agregavam muitos jovens nas paróquias ou nos centros juvenis e que hoje se apoiam em outros pontos nodais: nas causas políticas, religiosas e ambientais. Este renascimento pode significar que os jovens de hoje estão muito envolvidos na sociedade e se empenham para melhorar seus diversos aspectos, saindo do seu egoísmo e pensando no bem comum.

■ O mundo virtual
O que define os jovens hoje é, sem dúvida, a sua ligação com o virtual. Falando de associacionismo e das boas causas pelas quais se luta, pode-se correr o risco de permanecer implicados na pertença a uma comunidade dentro de uma rede social. Alguns perfis ou identidades dos usuários em rede refletem uma realidade paralela, sobretudo naqueles que pedem a aceitação entre pares.
Dada a prontidão à qual estão se habituando os “nativos digitais”, gerou-se neles uma baixa tolerância à falta de uma resposta imediata. As redes sociais estão onipresentes na sua vida cotidiana, enfraquecendo as relações sociais.
Sempre conectados, enganchados nos seus mobiles e colocados nas telas, os jovens mudam o seu modo de agir na família e na sociedade. Entre os jovens há aqueles que começam, mantêm ou rompem relações sem ter (nem desejar) encontros pessoais; aqueles que escolhem passar o tempo livre diante de um computador ou batendo-papo, em vez de sair e ficar junto com os outros; aqueles que organizam importantes competições de videojogos on-line, e são incapazes de compartilhar o tempo de jogo com aqueles com os quais vivem.
■ O que importa realmente
A partir do estudo dos jovens espanhóis emerge que a família e os amigos continuam a ter um lugar privilegiado, onde se fala do que é importante na vida.
O tempo de permanência na família se dilata, alcançando a emancipação e a realização de um projeto pessoal em uma idade sempre mais avançada. As famílias, neste período que é ainda considerado formativo para os filhos, dão muita importância à educação como caminho imprescindível para enfrentar as dificuldades da inserção no mundo do trabalho.
A família não é só o lugar onde se fala de questões importantes, é também o espaço de aprendizagem e de crescimento nos valores. É a primeira escola social que cada indivíduo experimenta. Nela eles adquirem valores, como a dignidade e a retidão, cuja importância está crescendo entre os jovens de hoje.

FÉ, DISCERNIMENTO E ACOMPANHAMENTO

■ Procuram-se ‘acompanhantes’
No contexto atual, como em cada época, os jovens precisam de guias para o seu caminho. É verdade que eles se sentem apoiados pela família, mas é também verdade que em alguns momentos procuram outras pessoas com as quais confrontar-se, antes de dar um passo decisivo na própria vida. Os jovens procuram segurança e, neste sentido, aumentam as visitas às páginas da Internet, ou às consultas ao horóscopo. Não poucos jovens procuram desta forma uma certeza à qual agarrar-se para enfrentar o cotidiano.
No âmbito acadêmico em que se movimentam muitos jovens, é frequente a presença de orientadores e psicopedagogos. Tanto nas escolas como nas universidades é exigida sempre com mais frequência a figura do acompanhante, que se torna imprescindível. Do mesmo modo, no campo do trabalho aumenta progressivamente a promoção de cursos de “coaching’, uma metodologia definida pela Escola Europeia de Coaching como “a arte de recolher perguntas para ajudar outras pessoas, por meio da aprendizagem, na exploração e descoberta de novas convicções, que tem como resultado a realização dos seus objetivos”.
Esta busca de um método ou de uma pessoa que ajude a discernir os próprios passos, vai muito além da pura profissionalização. Quando um jovem tem uma dúvida sobre a carreira universitária a ser escolhida, a dúvida nunca é apenas acadêmica, mas existencial. O educador que pode interpretar a questão lendo nas entrelinhas, sabe que o questionamento sobre uma decisão acadêmica implica também o tipo de pessoa que se quer tornar.

■ Uma resposta educativa e evangelizadora
É rica a tradição da Igreja sobre o acompanhamento. A ele foram atribuídos diversos nomes dependendo de onde se colocou a atenção em cada um dos momentos históricos. Ultimamente preferiu-se o termo “acompanhamento”.
Ao falar de formação, transcende-se a dimensão meramente acadêmica ou a psicológica; trata-se sobretudo, de ser preparados para ir ao encontro com Deus e guiar outros ao mesmo encontro, facilitando a relação da pessoa acompanhada, com o Senhor. Neste caso fala-se de testemunho.
No acompanhamento espiritual, o que guia o acompanhado para procurar a vontade de Deus em sua vida e a segui-la, a pessoa que orienta o caminho é aquela que o percorreu por primeiro.
Na preparação ao Sínodo dos Bispos sobre “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”, o Pe. Angel Fernández Artime, Reitor Mor, indica na Estreia de 2018 as linhas-guia para ser “acompanhante”, no estilo evangélico. “Como Jesus fez em cada encontro com as pessoas do seu tempo, é necessário que se faça em todo acompanhamento”:
– Um olhar amigo, como no chamado vocacional ao Doze (Jo 1, 35-51).
– Uma palavra com autoridade, como na sinagoga de Cafarnaum (Lc 4, 32).
– A capacidade de fazer-se próximo, como no encontro com a mulher samaritana (Jo 4, 3-34.39-42).
– Caminhar ao lado, como fez com os discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35).
Todos esses aspectos podem ser descritos como os traços característicos da empatia. Este termo é definido como a “capacidade de identificar-se com alguém e compartilhar os seus sentimentos”, e não se separa dos termos “compaixão” ou “misericórdia”, que definem Deus no Antigo Testamento. É necessário alcançar esta compreensão da pessoa acompanhada, para acompanhá-la no seu caminho. Por isso, o acompanhante deve libertar-se dos seus preconceitos e das suas ideologias para acolher o outro sem julgá-lo.

■ A proposta salesiana da Espanha
Na estreia de 2018 lê-se que para Dom Bosco “o acompanhamento espiritual à perfeição cristã é parte essencial e necessária da pedagogia salesiana”, um aspecto a mais para a educação integral do jovem, ao lado de sua alimentação, saúde e nutrição. E é assim também para os educadores salesianos convictos de que neste diálogo sincero o jovem possa descobrir o próprio projeto de vida e responder a Deus, a partir da vocação à qual é chamado.
Um traço que caracteriza a proposta salesiana é o ambiente, o grupo. Não se pode renunciar ao colóquio privado, porém a chave para se chegar ao jovem é partir da sua experiência e do grupo, em uma variegada proposta de pastoral juvenil. A partir do modo de estar com e para os jovens, feito de encontros breves, simples e familiares, pode-se chegar mais facilmente ao encontro e diálogo pessoal, franco e confiante, da arte de acompanhar, até alcançar aquele espaço sagrado em que a pessoa confia plenamentete num diálogo-confronto profundo e sistemático.
As Linhas da Pastoral Juvenil evidenciam, de um lado, a importância do acompanhamento e do discernimento pessoal, do outro a necessidade de formar os operadores de pastoral juvenil no acompanhamento espiritual. Na Espanha, no decurso de dez anos, foi organizado um curso sobre o acompanhamento espiritual de jovens para os operadores de pastoral juvenil. Trata-se de uma formação teórico-prática sobre a arte de acompanhar, promovida pelos Salesianos de Dom Bosco e pelas Filhas de Maria Auxiliadora, como resposta à questão eclesial de habilitar pessoas e este ministério (EG 169-1730) e para formar equipes que possam dar impulso a uma pastoral juvenil vocacional. O Projeto de formação sobre o acompanhamento pastoral de adolescentes e jovens estão estruturados em quatro níveis:
1º nível: Módulo formativo de 8 a 12 horas, para professores, animadores e educadores no âmbito dos cursos de preparação.
2º nível: Módulo formativo de 35 horas em três fins-de-semana, de introdução ao acompanhamento espiritual dos jovens, para professores, animadores e educadores.
3º nível: Módulo formativo de 170 horas em dois anos, para agentes de pastoral e educadores com a vocação para acompanhar pessoas e grupos.
4º nível: Módulo de formação permanente de um fim-de-semana ao ano, para aqueles que foram formados em cursos ou seminários específicos, ou exercem o acompanhamento pessoal.
No 3º nível, que está atualmente na sua quinta edição, formaram-se 80 operadores de pastoral, de toda a região espanhola. A proposta oferecida pela Pastoral Juvenil SDB e FMA, acolhe entre os seus destinatários todos aqueles que, apoiados pelo seu grupo, paróquia ou congregação de origem, desejam habilitar-se neste campo, mesmo se não procedentes dos grupos da Família Salesiana.

■Sujeito e objeto do acompanhamento
A pessoa que exerce o minsitério do acompanhamento sabe que também ela é acompanhada. Quem não decide discernir sua vida nas pegadas de Deus, não pode ajudar outra pessoa a fazer o mesmo. Cada pessoa está em formação permanente e o mestre, que é testemunha, continua, ele próprio a orientar a sua existência rumo a uma resposta mais autêntica ao Senhor. A relação de acompanhamento pode também ajudar o acompanhante a aprofundar a própria busca de Deus. Quando o diálogo se faz profundo e considera os aspectos essenciais do caminho, o próprio guia revive e reforça as motivações profundas de sua resposta a Deus.
Este aspecto da arte de acompanhar é fundamental também no grupo. Reconhece-se como uma riqueza salesiana o grupo, onde o jovem é ajudado a crescer e começa a dar os primeiros passos para Deus, graças aos seus educadores. Neste sentido, é uma estratégia confiar aos jovenes adultos ou àqueles que já fizeram a sua experiência, o cuidado dos menores. Assim, torna-se realidade o slogan: “Jovens evangelizadores de outros jovens”. Aqueles que, às vezes, são julgados imaturos ou incapazes, tornam-se capazes, adquirem experiência e progridem, eles mesmos, orientados pela própria intervenção educativa e evangelizadora.

A AÇÃO PASTORAL

■ Educar à fé com um itinerário
A tradição salesiana é rica de propostas formativas. As orientações emanadas dos Capítulos Gerais dos SDB e das FMA, concretizaram-se, no tempo, em várias propostas segundo o contexto de cada ambiente. Em cada realidade foram adotadas as indicações propostas no Projeto de Pastoral Unitária (1985) e nas Linhas de Orientação para a Missão Educativa (2004) do Instituto, com a finalidade de acompanhar o processo de crescimento no caminho de fé, dos jovens.
A concretização que se fez na Espanha nos anos 90, levou à elaboração de um itinerário de Educação à fé (IEF). IEF é definido como um “processo educativo global, segundo a lógica da Iniciação Cristã, que, considerando a realidade do ser humano na sua integridade, guia e acompanha o adolescente e o jovem no caminho da maturação cristã no mundo de hoje”.
Depois de vinte anos, o material do IEF foi renovado pela equipe de educadores SDB e FMA de toda a Espanha, com uma reflexão apresentada na Guia do Animador. A proposta se faz depois dos nove anos e acompanha o processo de crescimento na fé, até a inserção na vida adulta.

■ O grupo de fé Vida´s
Uma das propostas para acompanhar o caminho de crescimento na fé dos pequenos e dos adolescentes, das FMA na Espanha é o grupo de fé Vida´s, nascido da reflexão que, nos anos 90, levou à elaboração do IFE.
O grupo Vida´s oferece a possibilidade de realizar um processo formativo sistemático por meio de um itinerário de crescimento na fé para as crianças, os adolescentes e os jovens, dos 10 aos 19 anos. O objetivo do  itinerário é acompanhar e potencializar nos jovens o encontro pessoal com Cristo, Senhor da Vida, levando-os a um empenho social e eclesial, segundo a Espiritualidade Salesiana.
A finalidade do processo é favorecer a formação humano-cristã da pessoa por meio de uma metodologia experiencial, de grupo, ativa e criativa, segundo o Sistema Preventivo. Durante o seu percurso, são integradas gradualmente as capacidades de:
●Descobrir e dar sentido à própria vida
●Dar a razão da própria fé
●Viver os valores do Evangelho
●Viver a fé em comunidade
●Rezar e celebrar a fé
●Empenhar-se na transformação evangélica da realidade.
A proposta se desenvolve em quatro etapas: VIDA´S I (10-12 anos), VIDAS´S II (12-14 anos), VIDAS´S III (14-16 anos) e VIDAS´S IV (16-19 ANOS). Aos Jovens de 19 anos oferece-se o percurso do Catecumenato Juvenil e, a partir dos 24 anos, entram a fazer parte das Comunidades Cristãs.
Os momentos mais significativos da vida do grupo são as reuniões semanais, o encontro anual de fins de semana, e o campo de verão. Propõem-se também outras experiências de empenho social e momentos celebrativos, com o objetivo de interiorizar os valores e as experiências vividas.

■ No caminho do Amor
“Acreditamos no amor de Deus” é a opção fundamental da vida cristã. Não se começa a ser cristão com uma decisão ética ou uma grande ideia, mas no encontro com uma Pessoa, que oferece um horizonte novo à vida, e com isso uma orientação decisiva” (DCE1). O encontro com Cristo, o Acompanhante por excelência, é o que impele os jovens a avançarem no caminho do Amor autêntico, e é a finalidade para a qual todos os acompanhantes orientam.

 

Fonte: Revista DMA | Maribel Gómes Ranera


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