Nos dias 4 e 5 de fevereiro, o Instituto Maria Auxiliadora (IMA), de Rio do Sul (SC), deu início às aulas das turmas do Ensino Fundamental – Anos Iniciais de maneira animadora e significativa. A retomada das atividades foi pensada com intencionalidade, unindo acolhida, integração e o fortalecimento das competências socioemocionais.
Em conjunto com o Projeto Socioemocional da instituição, os estudantes participaram de dinâmicas de integração, propostas colaborativas e momentos reflexivos que favoreceram a escuta, o diálogo e o reconhecimento das emoções presentes nesse início de ciclo. Mais do que recepcionar, a escola buscou criar um espaço onde cada aluno se sentisse seguro, valorizado e pertencente.
A partir da iniciativa de tornar o ambiente escolar ainda mais acolhedor e baseado na confiança, foi desenvolvido um estudo e planejamento prévio para compreender como essa proposta poderia acontecer de forma concreta e próxima da realidade dos estudantes. O objetivo foi garantir que o retorno às aulas não fosse apenas um reencontro com conteúdos, mas também com vínculos, sentimentos e significados.
Para uma criança, esse retorno é uma avalanche de expectativas e vulnerabilidades. À luz do conhecimento científico, compreende-se que o acolhimento emocional não é apenas um gesto simbólico de boas-vindas, mas um elemento essencial para o desenvolvimento integral. Estudos na área da educação e da psicologia apontam que a segurança afetiva é o solo fértil onde o aprendizado floresce com mais consistência e significado. A iniciativa “Cores do Sentir” nasceu justamente para dar voz a esse turbilhão interior, permitindo que os educadores consigam “ler” o coração dos alunos antes mesmo da primeira lição no quadro. Assim, o início do ano letivo torna-se também um exercício de escuta, empatia e construção de vínculos.
A seguir o relato da coordenadora pedagógica do Ensino Fundamental – Anos Iniciais, Ângela, sobre a acolhida conjunta com o projeto socioemocional:
As Cores como Alfabeto Emocional
A proposta estabelece uma ponte entre o sentir e o dizer. Ao escolher uma cor, a criança traduz um sentimento complexo em um elemento concreto. Essa transposição configura um importante ato de segurança emocional, pois retira do aluno a pressão de encontrar a “palavra perfeita” em um momento de vulnerabilidade; a cor escolhida já comunica ao educador aquilo que precisa ser compreendido.
Os significados que compõem esse alfabeto emocional são claros e acolhedores:
• Azul: representa um pouco de medo.
• Amarelo: indica ansiedade diante do novo.
• Verde: simboliza confiança para começar.
• Rosa: expressa a alegria de retornar à escola.
Ao transformar o abstrato em algo tangível, o projeto oferece uma base consistente para que o aprendizado aconteça em um ambiente de validação e escuta. Como define a proposta pedagógica, “o objetivo é tornar o retorno às aulas mais leve e cheio de significado, construindo uma base sólida para o aprendizado por meio do fortalecimento de vínculos.”
O Mistério do Turno da Tarde: Por que o Horário Importa?
Um olhar atento aos dados revela que o estado emocional de uma criança não é estático; ele também é influenciado pelo horário do dia. A análise das turmas do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental trouxe uma constatação relevante: o turno da tarde apresenta, de modo geral, uma carga maior de apreensão.
No 1º e no 2º ano, por exemplo, o sentimento de medo atinge 7% dos alunos no período da tarde, em comparação com 2% no turno da manhã. No 3º ano, o contraste torna-se ainda mais evidente no campo da ansiedade: enquanto no período matutino o índice é de 35%, à tarde ele chega a 46%.
Outro dado que chama a atenção refere-se ao medo no 3º ano: ele está presente em 15% dos alunos da manhã, mas não aparece entre os estudantes do turno vespertino. As variações indicam que o acolhimento não pode seguir um modelo único e padronizado. Cada turno demanda estratégias específicas, nas quais a escuta ativa se torna ainda mais essencial, garantindo que nenhum aluno se sinta sozinho diante de suas inseguranças.
A Força Silenciosa dos “Alunos Verdes”
Em meio às cores que sinalizam a necessidade de cuidado, destaca-se o “verde”, símbolo da confiança. Os alunos que se identificam com essa cor exercem o que se pode chamar de “ponte pedagógica”: possuem maior estabilidade emocional e tendem a atuar como apoio natural aos colegas que demonstram ansiedade, representada pelo amarelo, ou medo, simbolizado pelo azul. O fortalecimento desses vínculos caracteriza o que a proposta denomina cooperação emocional.
No entanto, os dados indicam que é necessário atenção à escassez dessa “cor” em determinados grupos. No 5º ano, por exemplo, a diferença entre os turnos é significativa: enquanto, no período da manhã, 19% dos alunos relatam sentir-se confiantes, no turno da tarde esse índice cai para 4%. A identificação desses “oásis de confiança” permite ao educador estruturar redes de apoio e cuidado mútuo, incentivando que os estudantes mais seguros contribuam para o equilíbrio do clima emocional da turma.
O Crescimento da Ansiedade: O Desafio dos Anos Finais
Muitas vezes, acredita-se que, à medida que crescem, as crianças se tornam mais resilientes diante dos desafios que acompanham um novo ciclo escolar. Os dados, contudo, indicam uma realidade distinta. A vulnerabilidade emocional parece atingir seu pico nos 3º anos do Ensino Fundamental, superando os índices registrados no 1º e no 2º ano.
Enquanto os alunos mais novos tendem a lidar com medos mais imediatos, os estudantes do 3º ano enfrentam uma ansiedade antecipatória, que pode alcançar 46% no período da tarde. O dado evidencia que, à medida que amadurecem, as necessidades emocionais não desaparecem — elas se transformam, assumindo novas “cores”. Nesse cenário, práticas como a escuta ativa e as rodas de conversa consolidam-se como ferramentas pedagógicas tão essenciais quanto os livros didáticos, pois reconhecem e validam os sentimentos de alunos que passam a perceber, com maior clareza, a complexidade das responsabilidades que o percurso escolar lhes apresenta.
Uma Base Sólida para o Futuro
Validar o que uma criança sente é oferecer a ela as condições necessárias para aprender. Ao reconhecer sentimentos como a ansiedade e o medo, abre-se espaço para que a curiosidade e a alegria assumam seu papel no processo educativo. O acolhimento socioemocional, portanto, não se configura como um complemento ao currículo, mas como a base que sustenta uma aprendizagem consistente e humanizada.
Para educadores e pais, permanece o convite à atenção constante. Para além dos muros da escola, é fundamental refletir sobre como auxiliar as crianças a identificar e nomear suas próprias “cores” diante dos desafios cotidianos. Quando a criança compreende que seus sentimentos têm nome, espaço e acolhida, desenvolve maior segurança para enfrentar o amplo espectro de emoções que compõem sua trajetória, fortalecida pela presença e pelo apoio dos adultos que a acompanham.